esta pagina contem anexos do site: mundo à revelia (mundoarevelia.blogspot.com)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

p/ gil 70




maria tristeza 1963 pág 48 vídeo ruim .






vontade de amar 1963 pág 49 vídeo ruim .


meu luar minhas canções 1963 pág 49 ruim .

 .
 decisão (amor de carnaval) 1963 - 2008 página - gil falando
.


roda 1964 nao sou fã da elis mas esse vídeo 1972 é um achado (letra nao é de gil) mas melodia ardil [pág 52] vídeo bom

 
roda versao do gil 1975 video ruim lp capa foda


procissão - 1964 - consciencia marxista [pág 56] - melhor versao sonora - imagem ruim estática


hahaha esdrúxulo : procissao titto santos (brincadeira)


coragem pra suportar 1964 [pág 56]
uma das melhores, entra com certeza
um puta arranjo monstro do duprat
pena nao haver um video bom


coragem pra suportar - outra opcão de video


iemanjá 1964 video horroroso, tenebras
referencia sonora interessante letra de othon bastos


EU VIM DA BAHIA - JOÃO GILBERTO - VAIANDO A VAIA
{profilograma sonoro + g. mendes+ g. gil}


VIRAMUNDO - 1965 - LETRA COM CAPINAN


versão 'roots' da bethania
pode ser interessante - depende muito...
vale pela originialidade do video


ensaio geral elis 1966


MANCADA - ELIZETE CARDOSO


amor até o fim 1966 gal e elis


MINHA ZABELÊ - com jackson do pandeiro


HOMEM DE NEANDERTAL 1967 trecho do filme BRASIL ANO 2000 musicado por gil


DOMINGO NO PARQUE 1967 - MUTANTES
voz do arnaldo batista
gil e caetano falando


DOMINGOU 1967


barca grande 1967 pg 84 video estatico


frevo rasgado 1967 maria medalha interessante por ser inusitado mas a versao do gil é melhor no entanto talvez seja interessante vozes diversas diferentes mulheres


PEGA A VOGA CABELUDO 1967 OS BRAZOES


'momento 4' ele falava nisso todo dia























































terça-feira, 3 de abril de 2012

eletroacústica

oi dani,

até agora lemos esse txt
e o professor pediu para baixarmos os seguintes softwares:
Audacity & Reaper.
pra dar uma olhada neles
q depois vamos começar a trabalhar com eles...
fora isso
segue um som q foi ouvivido
na última aula.


bjoyce
mars*

Caso alguém ainda não tenha encontrado o texto do Sergio Freire, aqui vai em anexo.

olás, aí estão os e-mails. lembro a todos que leiam o texto do sérgio freire para a próxima aula.

anotações seguem:
1. ouvimos uma peça de luigi nono - omagio a emilio vedova (1960).

2. se alguém se interessa por uma discussão sobre terminologia, no que concerne a música eletroacústica, existe uma no livro "understanding the art of sound organization", de leigh landy (tem na biblioteca).

3. no livro azul, ludwig wittgenstein fornece algumas boas dicas (citado de memória, um tanto imprecisa): 
3.1 um dos erros mais recorrentes que fazemos é acreditar que um termo se refere a uma prática coesa, ou que um termo se refere a uma prática que possa ser descrita sem perda por regras.
3.2 o sentido de uma palavra ou termo é seu uso.

4. do livro: [Bennett, G.; Clozier, C.; Hanson, S.; Roads, C.; Vaggione, H. Académie Bourges Volume I - 1995: Aesthetics and Electroacoustic Music. Bourges: Acteon - Mnemosyne, 1996] tenho algumas anotações rápidas e curiosas.

4.1 Barlow, Clarence. On the Aesthetic all Historical Development of Electroacoustic Music. p.11-13
(11) Thus a first approximate definition for electroacoustic music could be "electrically produced music of unusually high information content".
(...) This makes the term "mannually unperformable" to all appearances a necessary corollary.
(12) A second necessary corollary is therefore "immediate electrical sound generation".

4.2 Berenger, Jose Manuel. On the necessity of defining electroacoustic music. p.26-30.
(26) The meaning of a term does not always remain stable: it is an evolving entity, constantly reconstructing itself according to current usage.
(26-7) (...) I would like to point out that the term "electronic music" is no longer applicable to the multiple musics whose production depends on electronic means. In fact, the term may be used to establish aesthetic differences within the musical productions currently assembled under the rubric of "electroacoustic music."
(30) by agreeing with Edgar Varèse that an artistic expression can be called music if its existence depends on sound.
(...) "Beyond any other type of classification to which it may belong, an artistic product that satisfies a prescribed body of aesthetic needs and that appropriates sound as its principal medium, can be called "electroacoustic music" insofar as an electronic operation is indispensable to its realization."

4.3 Clozier, Christian. The aesthetic situation and outlook of electroacoustic music. Related question: a definition of electroacoustic music. p.31-42.
[a dificuldade é que se trata de uma definição sobre gênero e estética, enquanto muitas definições tradicionais versão sobre "história" (períodos medieval, clássico, contemporâneo); função (sinfônica, religiosa, popular), ou são definidas quanto a categorias de
tipo (voz, percussão)
origem (japonesa)
técnica (monofônica)
poder acústico
grupo (quarteto)
performance (virtuosa)
cultura (´música séria, música popular) -> escritural, de partitura; de tradição oral
segundo o autor, a natureza revolucionária da música eletroacústica reside no fato de
(32) "a sound can be expressed as a relation between its sound value and its electrical energy" (...) e assim, "The values of electroacoustic music proceed from its very expression, where composition is related to the very creation of sound."
(34) Electroacoustic music is defined in relation to its means of production and distribution.
It is music realized by a creative process where sound production, controlled in distinct parts that organized together in real time in accordance with a compositional plan, is structured in a musical development based on the control of time and space.
The performance-production instruments are electric by nature and they constitute the electroacoustic chain. (...)
The piece does not result from score writing, but from a conscious practice. The music can only be listened to with speakers, which convert electrical values into acoustic sound waves.
(41) It is music that is presented as a work for the ear of the listener, whose memory forms the trace, and whose listening traces reality through the medium of the loudspeaker.
(...) It is music made by the ears of a composer with electronic instruments for the ears of a listener.

4.4 Jean Risset. A few remarks on electroacoustic music. p.82-84
(84) “music whose sounds are heard through loudspeakers”.

abraço!

domingo, 11 de dezembro de 2011

radiouvideo teste

KA – Velimir Khlébnikov – Велими́р Хле́бников

Eu tinha Ka=; nos dias da Branca China=, Eva=, descendo na neve do balão de André=, ouvindo a voz "vai!", deixados nas neves esquimós os rastros dos pés nus, – esperança – estranharia, ao ouvir esta palavra. Mas o povo de Masr= j´a havia conhecido milhares de anos antes=. E ele não estava errado quando dividia a alma em Ka, Khu e Bha=. Khu e Bha = a fama, boa ou má, do homem. Mas Ka é a sombra da alma, seu sósia, enviado para junto daquelas pessoas, com que sonha o senhor roncador. Para ele não há barreiras no tempo; Ka vai de sonho em sonho, atravessa o tempo e alcança os bronzes (os bronzes dos tempos). Aconchega-se comodamente nos séculos, como numa cadeira de balanço. Não é acaso verdade que também a consciência reúne os tempos juntos, como poltrona e as cadeiras da salad de visita? Ka era vivo, gracioso, moreno, terno; os grandes olhos tuberculosos= de um deus bizantino e as sobrancelhas, como que feitas apenas de uns pontos apertados, ele os tinha no rosto de egípcio. Decididamente, ou nós somos selvagens comparados com o povo de Masr, ou ele havia acrescentado à alma objetos necessários e cômodos, mas alheios. Agora – quem sou eu. Eu moro na cidade, onde escrevem "banhos gratuitos", onde os selvagens= espertos olham com olhos cautelosos, onde sobem pelas árvores graças à criação de coelhos=. Lá uma selvagem olhinegra, com o fogo prateado, passa numa garça morta, que já foi caçada no outro mundo pelo esperto selvagem morto com a lança na mão morta; nas ruas pastam velofinos= rebanhos de pessoas, e emnenhum lugar sonha-se tanto com a coudelaria de Kherenov= da estirpe humana, como aqui. "De outra forma a humanidade perecerá," – cada um pensa. E eu escrevi um livro sobre a humanicultura, mas em volta vagueavam velofinos rebanhos de pessoas. Eu possuo meu próprio pequeno zoológico= de amigos, que me são caros pela alta linhagem; eu moro na terceira ou quarta terra, a partir do sol= e queira me portar com ela como com as luvas, que sempre se podem jogar aos rebanhos de coelhos. Que mais dizer de mim? Eu prevejo guerras terríveis para saber com que letra escrever meu nome – se com iat ou e =.
Eu não tenho maxilopernas, cabeçapeitos, bigodesfiapos. Minha altura: sou mais alto que uma formiga, menor que um elefante. Tenho dois olhos. Será que não basta sobre mim?
Ka era meu amigo; eu amei por seu gênio de pássaro, despreocupação, espírito. Ele era cômodo como uma capa impermeável. Ele ensinaca que há palavras, com as quais é possível ver, palavras-olhos e palavras-mãos, com as quais é possível fazer.
Eis alguns de seus feitos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/ho/home/dsp_home.cfm

daniel scandurra . set 2011

trabalho sobre o texto :   Brasil (es)

de paulo herkenhoff
( publicado na revista espanhola Lapiz n.__ de 1.9__ )

________________
sobre o autor

Nasceu em Cachoeiro do Itapemirim (Espírito Santo) em 1949. Um dos pioneiros do vídeo brasileiro na década de 70. Abandou a carreira de artista plástico e se tornou um dos mais destacados pesquisadores e curadores de arte brasileira. Foi curador da 23ª e 24ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, curador adjunto do Museu de Arte Moderna de Nova York, MoMa, e diretor do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.
(fonte: http://www2.sescsp.org.br/sesc/videobrasil/vbonline/bd/index.asp?cd_entidade=95350&cd_idioma=18531)

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palavras chave do txt

tautologia – cultura (identidade cultural) – antropofagia – colonização – experimental – macunaíma – alteridade – brasil – pluralidade – pós-moderno – adversidade –  precariedade – inestabilidade – razão – invenção – surpresa – programa – HO – absorção – terceiro mundo – materiais – linguagem  –  cidadania

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trechos destacados

obs: os trechos foram traduzidos do espanhol para o português, a ordem foi alterada e o texto sofreu cortes e incerções (atitudes tomadas para favorecer a inteligibilidade do todo)

1. a cultura q se faz no brasil é a obra de artistas antropófagos

2.no catálogo da mostra “Information” (MoMA em 1970):
Helio Oiticica:
“eu não estou aqui representando o Brasil; ou representando coisa alguma”
Cildo Meireles:
“eu não estou aqui, nesta exposição, para defender nem uma carreira nem uma nacionalidade”

3. Clarice Lispector: “Eu pertenço ao Brasil no sentido em que sou brasileira”

4. grau zero:
Em 1924, o poeta Oswáld de Andrade afirmava: “contra a cópia, pela invenção e pela surpresa”. A arte brasileira é, talvez, como o brasileiro é Macunaíma, ou seja, tavez seja daquela classe de heróis sem nenhum caráter, que definiríamos por possuir uma forma criticamente problematizadora de discutir sua especificidade a partir do grau zero da formação de sua identidade cultural.
5.existem muitos “Brasiles”:
– Brasil é um país de telespectadores analfabetos
– (...) estranhamente, Brasil inicia (Mario Pedrosa em 1966) e supera a discussão sobre o pós-moderno antes que a Europa e sobretudo antes que vários segmentos da sua população acendesse à modernidade com a alfabetização.

6.antropofagia como programa:
Nos dois “Brasiles”, o país que experimentava uma incipiente industrialização ameaçava o país rural com promessas estéticas e táticas de choque futurista e escandalos dadaístas. (A etapa inicial do modernismo na América do Sul, ocorreu sem uma adequada compreensão do programa dos movimentos europeus, ingenuamente se autoproclamavam “Futurista”) Antropofagia como programa de absorção tensa e criativa dos valores do Outro transformada em energia própria, confrontada com os valores próprios e fundida em linguagem. i.é, a máquina de guerra futurista transformada em ‘tacape tapuia’

7.Há dois “brasiles”. Estão separados por um abismo, opostos. Rural e industrial. Há um Brasil avançado tecnológicamente e há um Brasil onde, por outro lado, ressoam a literatura de cordel, acordes e mitologias de um cancioneiro ibérico medieval. Miserável e rico, dividido entre o ‘bom selvagem’ (Rousseau) e o ‘capitalismo selvagem’. Há o Brasil formado por encontros de culturas e há o Brasil que hoje projeta as consequencias da escravidão.

8.A rígida estrutura de classes e a imobilidade social no Brasil não se alteraram com a queda do muro de Berlim e com o ocaso do império soviético (...)

9.Foram os comissários europeus e norteamericanos os que latinoamericanizaram a arte brasileira.

10.Há um Brasil que se acorda com o mundo e outro que se esquece de si mesmo. Esse primeiro Brasil tem museus com cinco Cezannes ou cinco Van Goghs. O segundo Brasil não tem NENHUMA obra de Hélio Oiticica em NENHUM museu até meados da década de 80.

11.Brasil é também um sistema da arte da equidistancia: a mesma distância política que separa os grandes centros brasileiros de arte dos centros hegemônicos europeus e norteamericanos parece separar os centros regionais e periféricos brasileiros dos centros hegemônicos do país (SP e RJ) . Em outras palavras: o (neo/pós)colonialismo das relações internacionais se reproduzem como um (neo/pós)colonialismo interno. Uma concentração de artistas e de instituições de arte corresponde a uma concentração de renda interna em um panorama de grave desequilibrios regionais-estruturais.
12. MINIMALISMO (menos é mas):
Inutil falar da arte brasileira a partir do minimalismo. Sem uma grande tradição pictórica, no Brasil se produz, a partir do final da década de 50, uma arte de antecipações.

13. Ao final da década de 50. Amilcar de Castro reduz a escultura a duas ações: cortar e dobrar uma chapa de aço, como duas operações que se mantém visíveis na obra, como índice de transparência do método. Isto não é uma forma frágil, mas desprovida de densidade.
Tentar reduzir isto como minimalismo é negar a existencia de possiveis historias da arte paralelas. Pelo contrario, certas descobertas formais de carater análogo que acontecem na arte brasileira são simultaneas (Clark / Ad Reinhardt), ou até mesmo tem aqui seus precedentes (como Lygia Pape sobre Frank Stella ou Robert Morris, a redução da escultura a dois verbos por Amilcar de Castro, mais economicos que as dezenas de ações/verbos de Richard Serra).

14. Na América Latina poderiamos falar de uma redução ao essencial. Ao contrario, nos EUA, o “less is more” minimalista segue sendo um processo de acumulação ao reverso, como se o vocabulário plástico fosse submetido a uma especie de negação: quanto mais nega (isto é, quanto mais reduz) mais quer (isto é, trata de acumulação e expansão).

15.materiais
Com grande precisão, Arthur Barrio compreendeu que os materiais condicionavam a linguagem dos artistas dos países mais pobres. (MANIFESTO AO LADO)

16. Se aqueles principios de economia funcionam como o diagrama de uma ética do capitalismo, na arte brasileira se encontra uma marca ética que aponta para uma ideia de cidadania e, sobre tudo, para uma noção de ALTERIDADE em resposta a permanente crise social do país (e em menor medida para uma noção de arte comprometida).

17. SE FAZ NO BRASIL UMA ARTE QUE FERE E CURA:
fere:
Tunga (Tacape)
Ivens Machado (“Tapete”, “Boomerang”, “Vibrador de capacete de vidro”
João Cabral de Melo Neto
(“O que vive/ Não intorpece/
O que vive fere”)
Krajkberg (esculturas feitas com troncos queimados)
Cildo Meireles (“Tótem” – galinhas amarradas a um tronco e queimadas vivas)

18.cura (“processo terapêutico”):
L. Clark (“O instante do ato não é renovável. Existe por si mesmo: repeti-lo é dar a ele um novo significado. Não contém nenhuma característica da percepção do passado (...) “Só o intante é ato de vida”
H. Oiticica (propostas com ênfase dirigidas aos sentidos – Uma obra de arte que, para realizar a sua plenitude, requer o tempo imanente do Outro, é portanto um ato de politização.

19.Brasil ama o pânico da razão :
“Aonde está a matemática?”, perguntava Max Bill perplexo e irritado ante as primeiras manifestações do movimento concreto brasileiro. Os primeiros artistas geométricos (Almir Mavignier e Ivan Serpa) primeiro trabalharam no programa do Centro Psiquiátrico D. Pedro II (...) Antes de ver Mondrian, Max Bill, Taueber-Arp, e outros, Mavignier e Serpa viram naquele hospital as primeiras obras concretas feitas no Brasil: os movimentos de pequenos quadrados pretos sobre fundo branco, redução da imagem do jogo de dominó, de Arthur Amora, um interno dessa instituição psiquiátrica.

20.A arte brasileira se curou da síndrome do atributo da razão, de ser uma ilustração de teorias.

21.Nelson Leirner e seu porco empalhado no período da ditadura:
A operação de Leirner foi a introdução de um dilema sem soluções para o jurado do salão oficial, um pequeno diagrama da estrutura do Estado autoritário: se aceitassem a obra, o jurado demonstraria não saber distinguir um porco de uma obra de arte. Se o rejeitasse, estaria confundindo uma obra de arte com um porco. Em última análise, a ação de Leirner era demonstrar a irracionalidade do terror. A arte é “EXERCÍCIO EXPERIMENTAL DA LIBERDADE”, afirmava há algumas décadas o crítico Mário Pedrosa.
22.Matriarcado de Pindorama:
Mesmo que em menor medida do que muitos outros países da América Latina, o Brasil é um país machista. Dizer que a mulher tem contribuido para a arte moderna brasileira seria menosprezar sua participação. A verdade é que a mulher fez a arte brasileira deste século, quase sempre à frente, muitas vezes ao lado, e raramente atrás dos homens. (Anita Malfatti, Tarsila e depois Maria Matins, Lygia Clark e Lygia Pape, Maria Leontina e Mira Schendel, Fayga Ostrower e Tomie Ohtake e tantas outras).

23.Arte de negociações:
A antropofagia de Oswald e Tarsila consagra uma formação étnica, de negociação de valores culturais entre distintos grupos nativos, europeus e africanos. Na ditadura militar, os artistas constroem uma arte de resistencia e um espaço político para a obra (Nelson Leirner, Cildo Meireles, Antonio Manuel, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Antonio Dias). (...) No campo retórico, Brasil se libertou do miserabilismo. Em troca, não perdeu de vista o oprimido.

Na experiência brasileira, o artista não só faz arte, mas também tem que construir, muitas vezes, o espaço social e armar a possibilidade política de seu discurso. (...) Arte como experiência ética. (...) HO exigiu, na obra ‘Homenagem a Cara de Cavalo’, o silencio na contemplação do corpo de um bandido morto, visto como um indício da revolta individual frente ao Brasil, país de impossibilidades sociais.

24. Existe, também no Brasil, um campo de arte de substantivos.
Filosofia, barroco e superfície são três exemplos. A filosofia de Merleau-Ponty de “L’Oeil et l’Esprit” com seu tema da carnalidade da arte subjacente na obra de HO (Bólides) e Lyga Clark (Obra Mole). Tunga trabalhou sobre questões plantadas por São Augustín ou por Bataille. A topografia da psicoanálise de Lacan deve confrontarse com a obra de Tunga (‘Toros’) ou a cinta de Moebius na reprodução de Lygia Clark e HO (respectivamente com as obras ‘Caminhando” e alguns ‘Parangolés’), conotando a continuidade entre o eu e o Outro. Do mesmo modo, Wittgenstein marca o raciocínio plástico de Mira Schendel ou os conceitos da natureza dos jogos visuais de Waltércio Caldas.

25. A filosofia ou a psicoanálise não são aqui ilustradas pela arte, nem sequer sua interpretação, mas funcionam como detonadoras (ignição) do imaginário e como ponto de partida para uma problematização plástico-visual, a que constitui sua própria epistemia (wiki epistemia: não é um conhecimento, nem uma forma de racionalidade, nem tem como objetivo construir um sistema de postulados e axiomas, mas pretende viajar um campo ilimitado de relações, o retorno, continuidades e descontinuidades).
___________________________________
maioria dos artistas e críticos
brasileiros citados no txt

Oswald de Andrade
Tarcila do Amaral
Anita Malfatti
Hélio Oiticica
Cildo Meireles
Clarice Lispector
Waltercio Caldas
Jac Leirner
Mario Pedrosa
Ligia Clark
Waldemar Cordeiro
Antonio Manuel
Antonio Dias
Nuno Ramos
José Resende
Goeldi
Guinard
Volpi
Mira Schendel
Aracy Amaral
Anna Bella Geiger
Arthur Barrio
Murilo Mendes
Fernanda Gomes
Amilcar de Castro
Lygia Pape
Tunga
João Cabral de Melo Neto
Anna Bella Geiger
Krajkberg
Tomie Ohtake
Maria Leontina
Fayga Ostrower
Maria Martins
______________
ALTERIDADE

A palavra alteridade possui o significado de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação e dialogar com o outro.
A pratica da alteridade se conecta aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais religiosos, científicos, étnicos, etc.
Na relação alteritária, está sempre presente os fenômenos holísticos da complementaridade e da interdependência, no modo de pensar, de sentir e de agir, onde o nicho ecológico, as experiências particulares são preservadas e consideradas, sem que haja a preocupação com a sobreposição, assimilação ou destruição destas.
“Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas”(Martin Luther King).
A prática da alteridade conduz da diferença à soma nas relações interpessoais entre os seres humanos revestidos de cidadania.
Pela relação alteritária é possível exercer a cidadania e estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes, na medida em que se identifique, entenda e aprenda a aprender com o contrário.
http://raphaelestevan.shvoong.com/1877726-alteridade/#ixzz1XJASY6jF









Cildo
Meireles
“zero
cruzeiro

sábado, 30 de julho de 2011

GULLAGAIN

HJ SAIU UM TXT DO AUGUSTO NA FOLHA REPLICANDO FERREIRA GULLAR,
A TRETA NÃO É DE HJ, SE SABE....

AQUI VAI UM CAPITULO ANTIGO PRA DIVERTIRIREM:


SAIU NA REVISTA "ARTE HOJE" NUMERO 2 DE 1978 ESSES DOIS TXTS, 

O PRIMEIRO DO DÉCIO DESCENDO A LENHA NO FAMOSO CATÁLOGO DA ESPOSIÇÃO "O PROJETO CONSTRUTIVO BRASILEIRO NA ARTE":

O SEGUNDO DO FERRERA CATANDO BORBOLETAS:

 

ALGUM TEMPO DEPOIS, NA EDIçÃO NUMERO 4 DA MESMA "ARTE HOJE" AUGUSTO REPLICA O ARTIGO DO GULA:

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

GARY HILL

Sobre Gary Hill
Gary Hill (Califórnia, 1951) é um dos artistas que melhor compreendeu e mais habilmente soube promover a integração entre a arte e as novas tecnologias. Começou sua carreira como escultor para, nos anos 70, explorar as possibilidades do vídeo em Woodstock – numa época em que se discutia a descentralização da produção e a possibilidade da criação independente em comunidades alternativas -–, ele vem desenvolvendo uma constante e impactante obra. Também promove uma estimulante combinação de meios, na qual a comunicação com o espectador/participante é imediata.

http://www.vimeo.com/user2002575

“Logo depois de começar a trabalhar com mídias eletrônicas, eu me prendi às aparentemente infinitas possibilidades da imagética eletrônica e me senti desorientado diante da necessidade de delimitar meu campo para fazer algo acontecer ao invés de assisti-lo acontecer”, afirma Gary Hill. “Minha saída diante deste impasse foi usar meu corpo e sons da fala primordialmente como expressão, mas também como um material que eu poderia lançar contra estes sinais efêmeros e interferir na imagem e sua maneira de estar sempre presente. Eu poderia dizer que me desprogramei do culto à imagem que ainda continua a crescer diariamente”.

cronologia: http://www.zkm.de/futurecinema/hill_cv_e.html
bio: http://garyhill.com/left/vita/biography

(fonte: site do mis: http://mis-sp.org.br/icox/icox.php?mdl=mis&op=programacao_interna&id_event=503) e http://www.mis-sp.org.br/icox/icox.php?mdl=mis&op=programacao_interna&id_event=502)







http://www.youtube.com/watch?v=DnuHVAlpY2I









1951 – 1968

Born April 4, 1951, in Santa Monica, California. Grows up in Redondo Beach, surfing and skateboarding. National skateboard champion in 1964; performs in the Cannes Film Festival-prize winner, Skaterdater. At 15 meets the artist Anthony Parks, who encourages him to take up welding and sculpture. Takes first dose of LSD. Stepfather builds him a small studio in the backyard.

1969

Moves to New York State and attends summer session at the Art Students League in Woodstock, New York. Supports himself with various odd jobs, mostly washing dishes.

1970 – 1972

Studies independently with the painter Bruce Dorfman. Encounters the work of composers La Monte Young (http://www.youtube.com/watch?v=UQ0-woVmTnk&feature=related ,  and Terry Riley (http://www.youtube.com/watch?v=UQ0-woVmTnk&feature=related e : http://www.youtube.com/watch?v=OjR4QYsa9nE&feature=fvw).






After seeing the “New York Painting and Sculpture 1940 – 1970” exhibition at the Metropolitan Museum of Art, makes a series of mixed media constructions using copper [cobre] coated steel [aço revestido] welding rod, wire mesh, canvas and enamel. Experiments extensively with sound-generating steel rod constructions and electronically generated sounds.

First solo exhibition at the Polari Art Gallery in Woodstock, New York.


1973 – 1974

First group exhibition, “Artists from Upstate New York,” at 55 Mercer Gallery in New York City. Makes first video installation, Hole in the Wall, at the Woodstock Artists Association. Exhibits first videotapes at The Kitchen Center for Video and Music in New York.

1978
Creates first works dealing with the speaking voice in relation to the image. Receives a Production Grant from the New York State Council on the Arts, a Creative Artist Public Service Fellowship, and the first of four National Endowment for the Arts Fellowships.

1982 – 1983
Teaches at the summer graduate program at Bard College, Annandale-on-Hudson, New York.


1984
Moves to Kamakura, Japan supported by a Japan/U.S. Exchange Fellowship and there marries Katherine Bourbonais (later separated). Returns to Barrytown, New York for the summer and produces Why Do Things get in a Muddle? (Come On Petunia) with his wife and Charles Stein performing.

1988
Completes Incidence of Catastrophe, also inspired by Blanchot’s Thomas the Obscure, which receives first prize at the World Wide Video Festival in The Hague and at the Montreal Independent Film and Video Festival.

1995
Receives the Leone d’Oro Prize for Sculpture at the Venice Biennale.

2003
Resides primarily in Paris and teaches at École nationale supérieure des beaux-arts, Paris, and Le Fresnoy Studio national des arts contemporains, Tourcoing, France (2003 – 05).


2004
Completes permanent installation of Astronomy by Day (and other oxymorons) for the Seattle Central Public Library, Seattle, Washington.


vídeo-poeta:

happenstance: http://www.vimeo.com/5509624


domingo, 14 de novembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

bom resumo do urubu

URUBU -TOM JOBIM

Urubu
Texto da contracapa do LP "URUBU" de Antonio Carlos Jobim - 1975
     Jereba é urubu importante como, aliás, todo urubu. Mas entre eles, urubus, observam-se prioridades. E esse um é o que chega primeiro no olho da rês. Sem privilégios. Provador de venenos, sua prioridade é o risco. O que ele não toca é intocável. Jereba é urubu importante e por isso ganhou muitos nomes. Peba. Urubupeba. Urubu Caçador. Achador. Urubu Procurador. Urubu de Cobra. Urubu de Queimada. Camiranga. Urubu de Ministro. De cabeça Vermelha. Urubu Gameleira .Urubu Peru. Perutinga. Urubu Mestre. Cathartes Aura.
     Não confundir com Urubu Rei. Nem é Urububu. Não tem pompas, nem é tão igual assim. Só se parece consigo mesmo.
    Não é Urubutinga. Nem Urubu do Mar, Carapirá. Nem o de Cabeça Amarela, nem o famoso Urubu Chacareiro, que voa baixo sobre chácaras e quintais, só come manga e não existe. É mentira de caçador perna-de-pau, de cadeira de balanço, de aposentada carabina.
    Nem mera citação de nomes - Urubu Sonho. Nem conotação de azar - Urubu Morcego. Na verdade não és culpado da nossa devastação. Corcovado de duas corcovas, solenes ombros altos de tanta asa sobrante, as mãos cruzadas às costas, narinas conspícuas vazadas, grave, ministro de assuntos impossíveis, só tu sentas à mesa com o Rei.
    No chão não te moves bem. Fraco de pernas, maljeitoso, troncho, pousado és o mais feio dos urubus. Despropositado passarão.
    Matas com fezes ácidas a árvore onde dormes à espera do dia solar. E vem o dia, as termais e o vento, e a necessidade de voar.
    Dia velho, as asas aquecidas, o Jereba mergulha na piscina. Pé de serra, fim de baixada onde começa a ladeira e os contrafortes azulam na distância, o Jereba sobe na chaminé do dia. Urubupeba. As rêmiges das asas púmbleas, prata velha fosca, dedos de mão apalpando o vento, adivinhado tendências. Urubu Mestre. As grandes asas expandidas cavalgam as bolhas de ar quente emergentes da ravina. Tolo papagaio, tola pipa boiando no ar, não-querente, não desejo navegante, à deriva, à bubuia - pois sim! - preguiçoso atento dormindo na perna do vento. Esse sabe o que há de vir. Aquário do céu.
    Teu canto imita o vento. Hisss... As asas agora curtas, sobraçando trilhos de ar, pacote negro compacto, bico cravado no vento, velocidade feita letal, muro de azul aço abstrato - e adeus viola que o mundo é meu.
    Nas lentes dos olhos, a águia oculta y entrabas e salias por las cordilleras sin pasaporte.
    Urubu procurador. Urubu Achador. Que sabes do alto o que se esconde no chão da mata virgem e dos muitos perfumes que sobem do mundo.
    Eterno vigia de um tempo imperecível. Guardião de dois absurdos.
    Nos vetustos paredões de pedra, esculpidos pela millennia, dorme de perfil um urubu.
    A vida era por um momento.
    Não era dada. Era emprestada.
    Tudo é testamento.

Antonio

CARTAZES

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PICHAÇÕES E URUBUS

Lorenzo Mammi

Enquanto escrevo, os três urubus que compunham a obra “Bandeira Branca” de Nuno Ramos já foram retirados da 29ª Bienal de São Paulo.Toda Bienal traz alguma polêmica que não é propriamente estética, e que acaba ocupando nos jornais um espaço equivalente ou maior do que aquele das resenhas críticas. É normal, por se tratar de um evento de massa baseados em obras que não falam uma linguagem de massa. Em geral, são discussões que acabam tendo certa relevância, porque ajudam a avaliar o grau de aceitação que a arte contemporânea tem junto à opinião pública. Esse caso, no entanto, me parece mais grave.
Na realidade, não é apenas de urubus que se trata. Já antes da Bienal, o autor da pichação, Djan Ivson, declarava que Nuno Ramos não teria direito de falar do “lado sombrio do Brasil”, porque é um “burguês formado em faculdade” (Folha.com, Ilustríssima, 17/09). Em 1 de outubro, a colunista Barbara Gancia sugeriu colocar o artista contra uma parede, e lavá-lo com uma mangueira. E Ingrid Newkirk, presidente da organização do tratamento ético dos animais (Peta) -- a única, me parece, a ter uma motivação séria – falou na Folha (8 de outubro) em obras criadas “unicamente com o intuito barato de chocar”, esquecendo que quem criou o escândalo não foi o artista.
É óbvio que o mote “Liberte os urubus” não corresponde a nada de real: esses urubus nasceram em cativeiro, no Parque dos Falcões em Sergipe, e para lá voltaram, para um espaço bem menor do que lhe era destinado na Bienal. É igualmente óbvio que nem eu, nem a maioria dos envolvidos temos a menor idéia do que pode estressar um urubu. O laudo do Departamento de Parques e Áreas Verdes não detectou nenhum sinal de estresse, o veterinário que acompanhava os bichos se manifestou no mesmo sentido. O juiz que chancelou definitivamente a remoção, o fez na base do princípio de que se pode revogar uma licença já concedida, quando foram detectadas novas irregularidades. Não foi divulgado, que eu saiba, quais seriam essas novas irregularidades, nem se a direção da Bienal ou o artista se recusaram a corrigi-las. Aliás, a obra não é nova: já tinha sido exposta em Brasília, no Centro Cultural Banco do Brasil, sem nenhum questionamento por parte dos órgãos responsáveis.
Se os espaços públicos brasileiros adotassem as regras propostas pela presidente do Peta, não poderiam ser expostas obras de arte que envolvam o uso de animais vivos. Ficariam fora muitos trabalhos importantes de Joseph Beuys, Iannis Kounellis e outros. Mas os filmes de John Ford, por exemplo, envolvem uso de cavalos vivos, e ninguém se sonharia de proibir sua exibição. A presença de animais num filme ou numa publicidade parece normal, é porque ali o bicho está “atuando”, representando algo. Numa obra de arte, ao contrário, o animal é apenas ele mesmo. Para nós, que estamos acostumados a freqüentá-lo apenas sob forma de hamburger ou sendo penteado na vitrine de um pet-shop, uma presença tão nua é vagamente inquietante. Somos levados a transferir para ele um desconforto que provavelmente é apenas nosso. Mas se a destruição ou mutilação de uma obra de arte é determinada por motivações tão confusas e erráticas, é porque a obra é considerada irrelevante e arbitrária. Não se reconhece a ela o direito de nos incomodar.
Coco Chanel definiu assim a diferença entre arte e moda: a moda é o belo que se torna feio, a arte é o feio que se torna belo. Com isso queria dizer, acredito eu, que a moda parte de um consenso que se pretende natural, mesmo sendo construído artificialmente (este ano a moda é...); mas esse consenso deve ser rapidamente substituído (a moda do ano passado está fora da moda, deixou de ter valor). A arte, ao contrário, especialmente a partir do modernismo, é a construção de um consenso sobre algo que não é óbvio de antemão. Para que uma obra de arte se torne relevante, é preciso que um grupo consistente de pessoas a insira num sistema de valores em que, à primeira vista, ela não deveria estar. Cada inclusão comporta a modificação do sistema inteiro. Quando os quadros impressionistas passaram do estatuto de borrões ao de obras-primas, mudou o perfil das molduras, o mercado da arte, o colecionismo, mas também a maneira de olhar para as periferias urbanas, os café-chantants, os circos, os bêbados e as putas. A arte exerce constantemente o papel de apontar para valores futuros, transgredindo os vigentes. É uma das formas que nossa civilização encontrou para se renovar.
Nuno Ramos é artista do caminho mais difícil, o que escolhe a solução menos esperada, a mais arriscada comercial e tecnicamente. Isso tornou sua carreira mais lenta, pelos parâmetros do mercado da arte, mas acabou tornando-o referência. Olha-se para a obra do Nuno, não para saber o que se deve, mas o que é possível fazer. É por isso, acredito, que a curadoria da Bienal lhe destinou o vão central da Bienal. Mas é também por isso, por ser um artista atípico e imprevisível, que nele se concentraram os ataques.
Na medida em que a sociedade perde a capacidade de transgredir a si mesma, de criticar seus procedimentos e valores, obras de arte que não caibam em categorias claras ou princípios já estabelecidos passam a ser vistas como provocações vazias. Em compensação, criam-se nichos de transgressão estandardizada, que não chegam a questionar valores universalmente compartilhados, mas apenas se instalam dentro deles, num lugar previamente destinado à rebeldia. Há quase trinta anos, o rap surgiu como manifestação promissora de novos sujeitos sociais. De lá para cá, se tornou o setor mais lucrativo da indústria discográfica, mas parece incapaz de se renovar. Sua linguagem é do slogan, do “nós contra eles”. Na música popular tradicional, o cantor era alguém fora do comum não apenas em relação à cultura oficial, mas também ao seu próprio grupo. O rap não evolui porque não permite esse tipo de distanciamento: não deixa espaço à autocrítica, à ironia ou ao desespero. Não seria capaz de produzir um Noel Rosa, ou um Nelson Cavaquinho. Vale para ele o que o protagonista do filme Uma mente brilhante diz da menina que lhe aparece em suas alucinações: não pode ser real, porque tem sempre a mesma idade.
O caso da pichação me parece semelhante. Os rabiscos que se vêem nos muros da cidade são interessantes, embora alguns deles – como a suástica inserida numa estrela de Davi, que recorre como vinheta no vídeo exposto na Bienal – proporcionem um calafrio na espinha. Chama-me a atenção, no entanto, os espaços escolhidos para as pichações. Mesmo antes da lei da cidade limpa, raramente atacavam mensagens publicitárias: preferem as paredes brancas, ou então a obra de grafiteiros, que são seus concorrentes imediatos. Numa sociedade de comunicação de massa, que tende a anular o silêncio, a pichação preenche, no fundo muito docilmente, os vazios. O inimigo não é o sistema, mas o vizinho, cujo espaço pode ser ocupado. E se antes o concorrente, nessa ocupação, era o grafiteiro, agora, com ambição maior, passa a ser o artista.
Quando uma obra de arte original é inserida num sistema de valores, é preciso repensar o sistema inteiro. Para a pichação, como antes para o grafite, isso não é necessário. É suficiente acrescentar mais um setor, sem interferir com os demais. Logo os pichadores terão suas associações, editais, e linhas de financiamento do governo. Elegerão vereadores. Quando sua linguagem se tornar muito gasta, outra cumprirá o mesmo papel.
No pequeno vídeo que está entre as melhores dádivas dessa boa Bienal, diz Jean-Luc Godard, nosso eterno mestre em transgressão: “A cultura é a regra, a arte é a exceção. Faz parte da regra querer eliminar a exceção”. Vivemos numa época da regra, a sociedade está se enrijecendo em oposições simplórias. A arte incomoda mais, quando for boa, porque não há regra onde caiba. É provável que perca essa guerra. Que os urubus fiquem sossegados.

Bandeira branca, amor Em defesa da soberba e do arbítrio da arte NUNO RAMOS

[resumo

Alvo de protestos de pichadores, jornalistas e militantes da causa animal, o trabalho "Bandeira Branca", de Nuno Ramos, foi desmontado na 29ª Bienal de São Paulo, por determinação do Ibama, que o havia autorizado. O artista faz uma defesa da legalidade da obra e reflete sobre consensos e rupturas inerentes à atividade artística.]


PROCUREI INTENCIONALMENTE
matar três urubus de fome e de sede no prédio da Bienal de São Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, além de espelhos, para que batessem a cabeça durante o voo. Construí túneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para forçá-los a voar, costumo lançar rojões em sua direção.

ACUSAÇÕES
Como nos pesadelos ou nos linchamentos, não é possível responder a acusações desta ordem, que circularam pela internet e no boca a boca com força insaciável nas últimas três semanas, criando um caldo de cultura próximo à violência e à intimidação. Como resultado disso, em plena Bienal, entre faixas pedindo que eu fosse preso, meu trabalho foi atacado por um pichador, que driblou a segurança, rasgou a tela de proteção aos bichos e danificou uma das esculturas de areia.
Fomos cercados, eu e minha mulher, por militantes ecologistas, que nos xingavam e gritavam do outro lado do vidro do carro, a boca em câmera lenta, "a-li-men-ta-e-les!" -o que, claro, já havia sido feito naquele mesmo dia. Barbara Gancia, colunista da Folha, chegou a pedir, utilizando um imaginário de repressão militar ou de milícia fascista, que eu fosse colocado de cuecas contra um muro e submetido a uma ducha com as mangueiras para incêndio do corpo de bombeiros.
Ingrid E. Newkirk, presidente da organização não governamental Peta [pessoas pelo tratamento ético de animais, na sigla em inglês], num artigo feroz, publicado na Folha em 8/10, encontra apenas o que pressupõe desde o início: que eu quero aparecer (ela, não? alguém duvida que um dos temas da polêmica é justamente a disputa pelo espaço na mídia?); que sou (os termos são dela) cruel, "bad boy", sem compaixão e produtor de arte de má qualidade. Como não há argumentos e o raciocínio é circular, tudo retorna à ilibada consciência da articulista.
A notícia atravessou fronteiras raras para questões envolvendo arte (horários insuspeitos em todos os canais de TV, cadernos de jornal pouco afeitos à cultura e nas mais diversas regiões do país), passando a assunto de bar e padaria. Os urubus, definitivamente, haviam conseguido escapar e, para usar os versos de Augusto dos Anjos, pousaram na minha sorte.

TOM
Frequento uma área da cultura afastada dessa luz radioativa, e não quero errar o tom. Começo este texto, portanto, fazendo a minha lição de casa: o que quer que tenha acontecido, aconteceu por meio das instituições. A licença do Ibama de Sergipe, que permitiu o transporte e a exposição dos animais, era legítima e dentro de parâmetros absolutamente legais, bem como sua cassação pelo Ibama de Brasília.
Tentamos, eu e a Fundação Bienal, que me apoiou de todos os modos possíveis em defesa do meu trabalho, uma liminar na Justiça e perdemos. Acatamos e tiramos, no mesmo dia em que a decisão liminar saiu, as três aves. Sinto-me coibido, injustiçado e chocado com tudo isso, mas não posso dizer que fui censurado. E por entender que a forma que destruiu meu trabalho ao tirar as três aves é legítima, quero divergir completamente dela.
Como quase nenhuma informação sensata circulou, tenho primeiro que dizer o óbvio:
1) As aves que utilizei em meu trabalho são aves nascidas em cativeiro, e não sequestradas ao habitat natural; é para este cativeiro que voltaram (e onde estão neste momento), quando foram "soltas" do meu trabalho;
2) Pertencem ao Parque dos Falcões (criadouro conservacionista que funciona com autorização do Ibama, realizando atividades educacionais e pedagógicas, pelo Brasil inteiro, com aves de rapina), que as mantêm em exposição para o público, como num zoológico;
3) Estas mesmas três aves participaram em 2008 de uma versão bastante similar deste trabalho, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, durante dois meses, adaptando-se perfeitamente ao espaço e sem nada sofrer, com plano de manejo aprovado pelo mesmo Ibama;
4) As aves foram adaptadas ao espaço da Bienal antes do início da mostra, com a presença do veterinário responsável por elas e de um tratador;
5) Esse tratador, o mesmo que cuida delas em Sergipe, ficou permanentemente com elas durante todo o tempo de exibição das aves ao público, literalmente abrindo e fechando a mostra:
6) Eram alimentadas por ele todas as manhãs, em quantidade e frequência estipuladas pelo plano de manejo;
7) O volume das caixas de som foi controlado, sendo mantido numa altura bastante inferior ao do murmúrio do público, para evitar estresse aos bichos;
8) O plano de manejo das aves, aceito pelo Ibama de Sergipe, foi revogado, já no meio da polêmica, pelo Ibama de São Paulo -mas sem recomendação de cassação. O que o laudo técnico, sério e sisudo do Ibama de São Paulo solicitava eram ajustes -basicamente, que desligássemos uma das caixas de som e que instituíssemos banhos de luz ultravioleta todas as manhãs, para suprir a falta de luz solar direta sobre os bichos (embora a luz do dia banhasse o espaço). Oferecia, ainda, uma licença de 15 dias, a ser prorrogada de acordo com a avaliação periódica sobre o bem-estar dos animais. O Ibama de Brasília, que, sob pressão política e midiática, determinou arbitrariamente a saída das aves, em desacordo com o laudo do Ibama de São Paulo, travou o que parecia ser um processo rico de colaboração entre técnicos sérios, com conhecimento sobre os animais, e um trabalho de arte;
9) Obtivemos laudo favorável do Departamento de Parques e Áreas Verdes da Prefeitura de São Paulo;
10) Técnicos do setor de aves do Zoológico de São Paulo, em vistoria ao trabalho, não manifestaram qualquer crítica específica ao manejo das aves -fiquei sabendo nesta visita, inclusive, que a jaula dos urubus era bem maior que qualquer jaula do zoológico, inclusive a do condor.

EXPIAÇÃO
Por que, então, tanta confusão? Que é que está sendo expiado aqui?
Para começo de conversa, e como aproximação ao problema, quero lembrar que "Bandeira Branca" não é um trabalho de ecologia, nem eu sou especialista em aves de rapina, assim como "Guernica" de Picasso não é apenas um trabalho sobre a Guerra Civil Espanhola, nem Picasso um historiador. Por isso utilizei os serviços de uma entidade ecológica, o Parque dos Falcões, e obtive, tanto na montagem em Brasília, em 2008, quanto em São Paulo, autorização do órgão legal em meu país para esses assuntos.
Ou a lei não vale para todos? Tratar meu trabalho como crime e a mim como criminoso é fazer o que fazia a direita franquista, ao chamar "Guernica" de quadro comunista, ou a aristocracia francesa da segunda metade do século 19, quando ameaçava retalhar a "Olympia", de Manet, em nome dos bons costumes.
O que me foi negado com a criminalização do meu trabalho foi a possibilidade de um sentido -o sequestro, digamos, de qualquer sentido que ele pudesse propor. E é contra isso, mais do que contra a boataria e a calúnia, que escrevo hoje.

VALORES
Arte não cabe nos bons nem nos maus valores, por mais confiança que se tenha neles. Dela emana um signo aberto, para isso foi inventada, para que fanatismos como os que ouvi nessas últimas semanas não circunscrevam completamente o possível da vida. Claro que ninguém está acima da lei, e, repito, cumprimos, artista e instituição, rigorosamente a legislação ambiental brasileira -mas é a possibilidade de pensar diferente que está sendo criminalizada aqui.
Artistas extraordinários como Joseph Beuys (por sinal, fundador do Partido Verde na Alemanha), Jannis Kounellis, Hélio Oiticica, Nelson Felix, Tunga, Cildo Meireles, utilizaram animais em suas instalações. Provavelmente o trabalho de Beuys que inclui um coiote ("I Love America and America Loves Me") seja, sem nenhum favor, uma das mais importantes obras de arte do século 20.
"Tropicália", de Hélio Oiticica, que tem araras vivas em seu interior (curiosamente, exposta há poucos meses, com as aves, no prédio do Itaú Cultural de São Paulo, na avenida Paulista, sem despertar qualquer polêmica), é um trabalho fundamental para a compreensão do que somos e do que queremos ser. Negar o que estes artistas conseguiram com seus trabalhos -uma oxigenação radical de nosso imaginário- tratando-os como criminosos certamente seria regredir a épocas de triste memória.
Posso entender quem seja contra bichos em cativeiro. Seria interessante exigir um pouco de coerência dessa posição -ou seja, vegetarianismo radical, já que a quase totalidade da carne que comemos vem de animais em cativeiro, fechamento de todos os zoológicos, jóqueis-clubes, fazendas com animais para monta e, ainda, requalificação geral de nossas relações com bichos domésticos. Mas, mais do que coerentes, gostaria que fossem suficientemente democratas para aceitar que nem todos pensem como eles, nem todos se deem o lugar de xamãs, em contato íntimo com os desejos e sensações dos animais, e que dentro das regras públicas legais de cada país o acesso a esses animais possa se dar sem histeria nem calúnias.

BANDEIRA BRANCA
Como nada ou quase nada se falou sobre o trabalho, peço licença para interpretar o que eu próprio fiz, partindo de uma breve descrição. "Bandeira Branca" (este título, no meio de um bombardeio desses, é dessas coisas que só a arte explica) foi montado pela primeira vez há dois anos, no CCBB de Brasília, e agora, ampliado e modificado, recebeu uma segunda versão, especialmente para a 29ª Bienal.
O trabalho consiste em três enormes esculturas de areia preta pilada, foscas e frágeis, a partir de cujo topo, feito de mármore, três caixas de som emitem, em intervalos discrepantes, as canções "Bandeira Branca" (de Max Nunes e Laércio Alves, interpretada por Arnaldo Antunes), "Boi da Cara Preta" (do folclore, por Dona Inah) e "Carcará" (de João do Vale e José Candido, por Mariana Aydar). Três urubus vivem na instalação durante toda a duração do trabalho.
O resultado é uma cena solene, entre a litania e a canção de ninar, que me parece ter cavado, em sua montagem em São Paulo, uma espécie de buraco negro no prédio da Bienal. Acho que o vão do prédio, uma das obras mais felizes de Niemeyer, com sua velocidade e otimismo, ganhou com meu trabalho um contraponto ambivalente, noturno e encantado, triste mas também próximo do mundo dos contos de fada.
Há uma espécie de espiral ascendente no trabalho, que se desmaterializa conforme o espectador sobe a rampa do prédio e as pesadas colunas de areia se transformam na geometria de quem vê as esculturas de cima. Feito primeiro de areia, depois de mármore, depois de vidro, depois de som, depois de voo, o trabalho faz em seu percurso o mesmo que as aves, num ciclo que a chuva de fezes brancas, caindo sobre as peças e sobre o chão, inicia novamente.

ANTIPENETRÁVEL
Mas o ponto crucial, acho eu, é que, apesar da monumentalidade do trabalho e da textura inacabada da areia, que solicitam o corpo do espectador, o público é mantido fora da obra, numa espécie de antipenetrável. A obra de certa forma já foi ocupada, já tem dono e por isso não podemos nos aproximar. A noite, as canções e os urubus são seus donos, e ao público resta assistir de fora a alguma coisa viva, que não precisa dele.
As canções e os bichos, forças ascensionais contra a inércia e o peso das esculturas, já tomaram conta da obra e a tela de proteção, que materializa o desenho do vão do prédio, marca essa passagem entre um exterior institucional e um interior ativo, fechado em si, mistura de cultura (canções), natureza (os urubus) e arquitetura.
As aves e as canções dão ao trabalho o seu agora, uma duração voltada para algo indiferente ao mundo lá fora. Daí que muita gente tenha me dito que se sentia observado pelas aves e não observador, dentro da grade e não fora dela. E que no meio de tanto tumulto, com certeza as três aves pareciam as únicas tranquilas.
Esta atividade interna autossuficiente está no coração deste trabalho e me acompanhou ao longo da balbúrdia destes dias difíceis. Fico feliz de perceber que de certa forma o trabalho já pressupunha isso, falava disso e defendia-se exatamente disso -queria estar consigo e não conosco, longe da barulheira que no entanto causava.

AUTOSSUFICIÊNCIA
Em vez da atividade do espectador, própria de tantas das melhores obras modernas, e que encontrou entre nós uma formulação extrema na ideia dos "Penetráveis" de Hélio Oiticica, a arte contemporânea parece estar se voltando para dentro, numa autossuficiência renitente.
Não é o lugar para desenvolver isto, mas, para dar dois exemplos memoráveis, acho que as "Elipses", de Richard Serra, apoiadas em si mesmas e não mais nas paredes das instituições, ou "O Ciclo Creamaster", de Matthew Barney, com suas infinitas dobras e relações internas, partilham esta característica. Meu trabalho acompanha de certa forma essa direção.
A institucionalização crescente da arte trouxe para junto dela uma pletora de discursos institucionais, todos perfeitamente centrados, seguros de si e disputando espaço na mídia e nas oportunidades orçamentárias. Isso vem, talvez, do estilhaçamento das grandes noções universais que acompanharam a formação do mundo moderno: política, religião, burguesia, proletariado, luta de classes, direita, esquerda etc.
Com a quebra dessas noções universais, os particulares (ecologia, minorias étnicas, minorias sexuais etc.) firmaram-se, cheios de si, pontudos, zelosos de suas verdades. A arte talvez seja a última experiência universalizante, ou ao menos não simétrica à discursividade do mundo, e acho que tende a ser cada vez mais atacada, toda vez que discrepar, como soberba e como arbítrio. Mas penso que é isso mesmo que ela deve manter: sua soberba e seu arbítrio, para que possa continuar criando.

DESFAÇATEZ
Pois isso para mim foi o mais impressionante de tudo: a absoluta incapacidade, digamos, interpretativa de quem me atacou, a recusa de ver outra coisa, de relacionar o sentimento de adesão ou de repulsa que meu trabalho tenha causado com qualquer coisa proposta por ele, em suma, a desfaçatez com que foi usado como trampolim para um discurso já pronto, anterior a ele, que via nele apenas uma possibilidade de irradiação.
Para isso, é claro, o principal ingrediente é que fosse tomado de modo absolutamente opaco e literal, espécie de cadáver sem significação. Para que possa ser veículo estrito de discursos e de grupos, sem que utilize seus recursos, digamos, naturais (sedução, desejo, ambivalência), o trabalho de arte tem de estar, de fato, desde o início definitivamente morto. Daí, creio, a ferocidade com que fui atacado -uma espécie de operação higiênica preventiva, para impedir que qualquer germe de espanto, ambiguidade, beleza, estupor, pudesse aparecer, desqualificando o desejado consenso.
No fundo, acho que a frase famosa de Frank Stella, que jogou uma pá de cal nas ilusões subjetivas de começos dos anos 60 e inaugurou as poéticas minimalistas que duram até hoje, "What you see is what you see" ("O que você está vendo é o que você está vendo"), parece ter migrado da arte para o mundo. A literalidade das obras de um Carl Andre ou de um Donald Judd transferiu-se inteira para as instituições e para o público.
Por isso talvez caiba hoje à arte a tarefa bastante simples, mas tão difícil, de dizer exatamente o contrário: "O que você está vendo NÃO é o que você está vendo". Ou seja, sonhar. Ou, como diz a letra da canção, "Bandeira branca, amor".